A BATALHA DAS CRIANÇASO odor insuportável da carne humana queimada impregna o ar enfumaçado, cheio de lamentações e de gritos histéricos de dor.
É Acosta Ñu (ñu é campo, em guarani).
Há poucas horas esse campo foi o palco de uma batalha sangrenta e desumana como nunca houve igual sobre a face da terra. De um lado a resistência heróica e suicida formada por cerca de 3.500 meninos guaranis, entre seis e quinze anos, com bigodes pintados a carvão na tentativa de se passarem por adultos; junto com as crianças lutavam gente ferida, mulheres e velhos. Do outro lado, um exército de 20.000 homens, entre imperialistas brasileiros, argentinos e uruguaios, comandados pelo sanguinário Conde D'Eu.
O general paraguaio Bernardino Caballero, comandando 500 veteranos do VI Batalhão, formou juntamente com as crianças, uma barreira humana que tentaria impedir que as forças aliadas pudessem continuar perseguindo a comitiva do Marechal Solano Lopez.
Amanhece o dia 16 de agosto de 1.869.
A estratégia do exército da Tríplice Aliança foi a de formar, aos poucos, um grande círculo ao redor do agrupamento paraguaio. Ao toque do clarim, de atacar, a cavalaria imperial se precipitou rasgando o chão, e a golpe de espada ia degolando crianças e mulheres que se agarravam, no desespero da morte, nas pernas dos cavalarianos. A luta teve requintes de fúria infernal. Quando a mãe percebia seu filho ferido de morte ela própria se atirava sobre o corpo infantil e o estrangulava com as próprias mãos, para que o inocente morresse de imediato, e depois ela se jogava na ponta da lança inimiga buscando o alívio da morte.
O Conde D'Eu, ao arrefecer o embate, percebeu o embuste da resistência. Ordenou, então, que incendiassem a mata onde se refugiaram e se protegiam os paraguaios. O fogo se alastrou rapidamente alimentado pela macega alta e pelo vento forte, e no meio do crepitar das línguas de fogo ouviam-se os gritos de dor e agonia, e se viam corpos envoltos em chamas correndo ao léu para logo tombarem transformados em tochas humanas.
Quando finalmente a noite caiu, e o exército aliado se arretirou do campo devastado, o seu Estado-Maior começou a avaliar o resultado da batalha. O fogo ainda iluminava aqueles amontoados de corpos carbonizados. No meio da mata escura, mal iluminada pelo clarão avermelhado, escutava-se aqui e acolá o lamento plangente dos agonizantes. Era o próprio lamento de uma nação exterminada em banho de sangue e de horror.
Mas uma semente ficou escondida, preservada.
O cheiro forte, fétido, da carne carbonizada causa tonturas ao Dr. John Smith, médico inglês a serviço dos aliados, designado para cuidar dos sobreviventes daquele holocausto. É a manhã do dia 17, e o sol apenas acinzenta o céu quando o bafo quente do incêndio faz o Dr. Smith suar e sentir constantes náuseas. Sujo de cinza e carvão, o médico parece uma alma penada vagando pelo rescaldo do inferno. Dois auxiliares enfermeiros e alguns soldados da patrulha o acompanham. Todos tapam o nariz com a mão. Tudo que ele vê é o horror do extermínio, que não conhece piedade e nem se dobra à compaixão, postas de carne pisoteadas, corpos sem cabeças, tripas fedorentas esparramadas pelo chão, e as queimaduras que fizeram a carne se soltar dos ossos como se fosse geléia derretida.
A expectativa do Dr. Smith, de não encontrar alguém com vida na área do incêndio, se confirma à medida que o pequeno grupo avança pelo vasto cemitério, desviando aqui e acolá das labaredas que ainda teimam na destruição. No centro do holocausto o fogaréu destruiu tudo, mas, à medida que se afastava, foi tomando outros rumos, impelido pelo vento forte de agosto, abrindo assim clareiras com vegetação apenas sapecada, onde se refugiaram alguns poucos feridos.
A meia légua de caminhada, à sombra de um frondoso pé de jatobá, param finalmente para um rápido descanso e para arejar os pulmões. Os poucos feridos encontrados, e sem nenhuma esperança de sobreviverem, foram retirados para o acampamento. As lamentações e os gritos histéricos de dor, aos poucos, foram cessando, e um silêncio de mau agouro cobriu toda aquela tumba exposta ao ar livre. Muito ao longe, nas copas dos coqueirais, pode-se ouvir o grasnido de um ou outro pássaro, viventes daquele sertão sem fim.
O Dr. Smith desce o lenço amarrado na nuca e que protege suas narinas. Faz menção de se apoiar num tronco caído quando percebe que o soldado brasileiro manobra seu fuzil e aponta na direção de um magote de bananeiras.
- O que viu, soldado?
- Aí tem gente, doutor!
- Não atire!
O inglês se aproxima com cautela, e primeiro vê um braço infantil agarrado ao redor da bananeira, depois um par de olhos assustados, e mais outro. Ele afasta a folha seca caída da bananeira, e com surpresa descobre ali duas crianças apavoradas, um casalzinho de guaranis. Aproxima a mão do menino para tocar-lhe a fronte, mas o pequeno é mais ligeiro e esconde a cabeça entre as pernas. Toma a posição de quem espera o golpe de morte. A menina se abraça então em desespero à bananeira, e começa a tremer de medo quando o médico lhe toca suavemente a mão. O médico se agacha e toca o joelho do menino, que continua paralisado pelo pânico.
- Saiam, não vamos lhes machucar... - fala em espanhol.
Aos poucos o braço em torno da bananeira vai se afrouxando, e a cabeça escondida entre os joelhos vai-se levantando. Aquelas duas crianças milagrosamente são as únicas sobreviventes da brutal carnificina.
- Não tenham medo...
O menino, de olhos esbugalhados, olha hipnotizado o soldado com a arma ainda apontada para sua cabeça.
- Baixe essa arma, soldado! Aqui não há mais nada para matar!...
* Trecho do meu livro Ñandepá (Nosso Fim), em preparo. Este fato descrito da Batalha de Acosta Ñu (Batalha das Crianças), durante a Guerra do Paraguai, é verídico. O Dr. John Smith levou o casal de crianças e os criou na sua fazenda, chamada Casa Blanca, em Concepción (PY). Ao menino foi dado o nome de Bernardo, e à menina chamaram Belém. Como não eram irmãos, acabaram se casando, e foi assim que nasceu meu avô Narciso, que teve uma educação esmerada em Assunção, Capital do Paraguai.Veja outros Artigos:»
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