A mãe sonhadora e seus filhos voadoresEita mãe brasiguaia! A saga de uma família em que a aviação foi o seu destino. Nascida em Encarnación, no vizinho Paraguai, no ano de 1915, em Ponta Porã casou-se com o argentino Ezaul Cardoso, filho de brasileiro catarinense.
Ao longo de harmoniosa vida familiar tiveram 10 filhos: quatro mulheres e seis homens. Todos os homens tiveram a mesma profissão: pilotos de avião, com destaque para Heitor e Aral, hoje coronéis-aviadores da reserva da FAB (Força Aérea Brasileira).
A história dessa família que lutou contra a desventura, mas sempre unida e com trabalho, foi vencedora. Achei essa história tão brilhante que não sei ainda como não virou um filme. E buscando um pouco de informação comecei a me interessar pela história dessa família.
Foi então que aos poucos fui descobrindo detalhes que passo a narrar. Em 1920 se mudam de Ponta Porã ao então Patrimônio de Dourados, pertencente àquele município onde nasceu, em 1921, o seu filho Heitor, lá vivendo por quatro anos.
Muda-se para Juti e, em 1931, para Caarapó onde Ezaul tinha armazém e explorava erva-mate naqueles lugares. Descobri amigos como Augusto Capilé Júnior, o “Sinjão”, que se conheceram nas paragens de Dourados. O aviador da FAB diversas vezes esteve nessa cidade antes da morte de Teodoro Capilé, com ele cantando, pois é o autor de Índia Morena e Volverás.
De Caarapó os Cardoso “tomaram rumo” a Campo Grande em 1933, sempre tendo à frente a bravura de Aurora, agora como dona da Pensão Central. Em 1939, com o mesmo ramo, mudou-se para a “Cidade Maravilhosa” Rio de Janeiro.
A partir daí para a glória da mãe que incentivou os filhos a voar. Heitor, durante a Guerra 40/45 vai aos Estados Unidos e volta piloto militar. Daí por diante os irmãos lhe seguem, sempre com o estímulo da paraguaia que muitos anos viveu na mesma casa.
Ao despedir-se dela, simples dona-de-casa, escreveu:
DESPEDIDA DE LA CASA
Arthur Bernardes, 34 Catete
“Adios casita querida
desde aquel feliz dia
Que aqui vine a vivir,
Aqui prossegui lá glória
Aqui, antes de partir
Recebi homenajes, honras
Como buena recompensa
Del abrigo que cubristes
A mis seres tan queridos
Que jamás em esta vida
Podré echar em olvido
El futuro tan merecido
Que bajo tu dulce sombra
Sembramos e recojinios
Hijos, padres, parientes y amigos
Que lhoram al destruirte
Y lhevan como conzuelo
El piso que como como suelo
Pisamos y acobijamos
Hasta el ultimo dia
Em que lhegó el momento.
Lhevamos um documento
Que vale más que el oro
Lãs fotos de aquel tesoro
Que pulsan em los corazones
De tantos y cuantes seres!
Bendito sea este suelo
Bendito quien acogió
Bendito el que por dueño
Se glória emposcerte hoy
Que sea feliz como yo soy.
Em realidad se tome el sueño”. Com o filho Heitor voando pelos céus do Brasil, a mãe, orgulhosa, apóia os demais Arsênio, Ezaul Filho, Arlindo, Elpídio e Aral a fazerem o mesmo. Uns na Força Aérea Brasileira, outros nas aviações civil e comercial. Dois deles morrem em acidentes aéreos.
Nem por isso os demais deixam de voar. A mãe chora a perda dos filhos, mas não desestimula a carreira dos demais. Foi então que o Ministério da Aeronáutica outorga-lhe o título: “A Mãe da Aviação Brasileira”. Seis filhos, seis pilotos de avião. Fato único conhecido até então no mundo.
Descobri também que o então Presidente do Paraguai, Alfredo Stroessner, nascido na mesma cidade, reconhece o valor e a bravura de Aurora em significativa “del Gobierno de la Republica del Paraguay”. Um fato interessante é que o major Heitor foi instrutor de cadetes paraguaios.
Com aviões da FAB viajou pelo mundo inteiro. A mãe, como “A Mãe da Aviação Brasileira”, de simples professora em Pedro Juan Caballero é levada pelos filhos, de avião, pelo Brasil. Morre em Brasília em 1984, com 92 anos dona Aurora Icassati Cardoso.
No livro “Seis vidas num só rumo”, que tive o imenso prazer de ler, o coronel Heitor assim escreve: “E; depois de inúmeras viagens pelo espaço da vida, o ‘avião’ da brava líder do clã dos Cardoso não tem mais condição de vôo, por ter atingido o tempo limite de vida útil e ela decola, pela última vez, agora para a vida eterna”.
Sua pena brilha no papel tanto quanto o piloto Heitor e os cinco Cardoso brilharam nos céus. Não se sabe a quem mais valor dar: se à dona Aurora, mãe paraguaia/brasileira, ao esposo Ezaul ou aos filhos, os irmãos voadores. Que brava família, exemplo a ser seguido com amor, trabalho, dedicação, estudo.
Do autor se pode dizer - este é sim homem feliz. Biologicamente velho espiritualmente moço. Nesta breve e fascinante viagem espero ainda poder ver esta história ser transformada em filme, ou quem sabe uma minissérie da Globo ou até nome de estrelas. Ainda se não for nada disso, seria uma das mais fascinantes sagas de uma família que escolheu voar e sonhar bem alto, lá no céu de brigadeiro!
Veja outros Artigos:»
Chena o discípulo do Museu!»
Marcelo Martelo e os Mini Heróis»
Eu falo ‘portuguaranhol’»
Viagens no Trem do Tereré»
Quem diria, já fomos capital!»
O ouro de tolo»
A menina da foto»
O jogador que virou ídolo dos gays»
Um Stradivarius na fronteira»
Bilego e a sinuca de bico»
UM PREFEITO FORGADO!»
RACHID DERZI, O SENADOR DE FERRO»
A PRINCESA DOS ERVAIS»
ENSINAR: ARTE DE EDUCAR PARA A VIDA»
'MUSEO' E AS 200 GALINHAS»
'MUSEO', O REI DA MARRETA! (PARTE II)»
'MUSEO', O REI DA MARRETA! (PARTE I)»
O RELÓGIO ENIGMÁTICO»
FAUSTINO E O CHUPA-CABRAS»
CLUBE DO CACHETÃO»
OLACYR, O REI DA SOJA»
A LENDA DA LAGOA PONTA PORÃ